Rio de Janeiro, janeiro de 2011
Será que isso vai contra a compaixão?
Algumas pessoas ficam na dúvida se a postura de não se importar com as coisas, pois tudo está bem como está, vai contra a compaixão e o amor incondicional. Não vejo como. O verdadeiro significado da compaixão não é aquele religioso que nos foi ensinado, onde inclusive sentir pena era cabível. Quando você tem compaixão, você respeita a vida de tudo e de todos com as escolhas de cada um. Isso é, na verdade, não se importar. É não se importar se determinada pessoa escolheu um caminho que você não escolheria. É não se importar se algum ser está sofrendo ou não, uma vez que faz parte da escolha dele, seja lá em que nível for. É não se importar se acontecem derrotas e tragédias ou vitórias e celebrações. Se alguém é assim ou assado. Se acabam algumas espécies de animais ou se surgem outras.
Não sei se conhecem, mas no seriado da Disney, Hannah Montana, o personagem Jackson Stewart, um rapaz considerado meio tolo, digamos assim, faz uma declaração surpreendente pra mim, que me marcou bastante. Foi num episódio em que ele estava “de saco cheio” de uma garota que adorava ele, mas era radicalmente ecológica. Quando ela fala que o aquecimento global está acabando com os ursos polares e os filhos dele não vão conhecer ursos polares, ele diz mais ou menos o seguinte: “Eu não conheci dinossauros e estou aqui, não fiquei mal por isso.” Achei o máximo como justificativa do “não importa”! Tudo está certo como está. Não sou eu que tenho que preservar os ursos polares ou seja lá qual for o animal. Tudo bem eu não ter visto dinossauros. Afinal, a natureza merece ser respeitada; ela sabe o que faz e, se não souber, também não importa. Tudo é mudança, é evolução.
Quando se fala de ter um equilíbrio entre compaixão e não se importar, até entendo, mas o que acontece é que "não se importar" não é esse horror todo que também nos foi ensinado. O significado de "não importa" não inclui "não gosta" nem "não respeita" nem "não envie seus bons pensamentos para o que tiver que acontecer", pelo contrário. Você simplesmente não carrega o peso, a preocupação e o medo que vem de um julgamento de que algo é ruim. Principalmente quando inclui morte... Por que morrer é ruim, gente? Só pra quem acha que tudo vai acabar... daí, pode ser meio difícil, meio complicado... “tenho que preservar a vida, pois depois não há mais nada”... Mas a gente sabe que há. Há mais vida! Vamos parar de nos preocupar com a morte e viver desde já!
Enfim, pra mim, compaixão e não importa são as verdadeiras bases para o amor incondicional. Amar sem julgar. Fala-se muito de amor incondicional, mas poucos sabem o que ele é realmente. “Eu tenho amor incondicional pelos animais, por isso, quero preservar as espécies.” Que afirmação mais equivocada! Isso é incondicional? Se você quer alguma coisa, pra começo de conversa, já está impondo uma condição. É claro que você pode continuar querendo coisas, mas sem interferir física nem energeticamente nas escolhas dos outros. As coisas que você quer virão, principalmente, se estiverem relacionadas a você mesmo, pois serão suas escolhas. Claro que você pode escolher não conviver com determinada pessoa que não o agrada, não comer determinado alimento de que não gosta, comprar ou não alguma coisa. Não importa. Mas outros também terão suas próprias escolhas, inclusive, de deixar o planeta!
Às vezes, esse papo todo soa meio chocante pra quem não está preparado, mas esse choque, essa revolta ou irritação possibilita uma quebra nos pensamentos obsoletos que a gente ainda carrega e que estão muito arraigados no fundo de nosso ser.
Bom, vamos seguir respeitando as escolhas! Até mesmo as nossas! Portanto, se quiser se importar que se importe. É sua escolha. Mas não venha dizer que não se importar vai contra a compaixão e o amor incondicional, porque antes o que acontece é que você não sabe bem o que é compaixão nem amor incondicional...