Rio de Janeiro, setembro de 2013
Será que mentir é uma coisa negativa mesmo?
Se considerarmos que a mentira é uma coisa negativa, então, estaremos julgando. E sabemos que, à medida que prosseguimos no caminho da evolução, julgar é o que precisamos ir, naturalmente, deixando de fazer, para facilitar nossa tomada de consciência. Mas, tudo bem, até o fim desse caminho, podemos acabar deixando de mentir também, é claro; não estou dizendo que mentir é o caminho. Só quero falar um pouco sobre as dinâmicas da mentira.
Todos mentimos. O que varia é a forma, a motivação e o nível de nossa consciência ao mentir. Alguns mentem para os outros, outros mentem para si mesmos. Quando se mente para os outros, é mais fácil a consciência entender o mecanismo da mentira. Mas quando se mente para si mesmo, a consciência não consegue identificar o que acontece, pois a mente arranja subterfúgios para evitar isso, através do convencimento de que seja o que for não é uma mentira.
Quando os pais ensinam para os filhos que não se deve mentir, estão na verdade sendo hipócritas, mesmo que acreditem nisso, pois eles mentem e sabem que a vida vai acabar levando-os a mentir. E os filhos percebem que eles mentem, então, pra que dizer que não se deve mentir?
Na prática, o resultado para os filhos virá do entendimento que os pais têm da mentira. Ou seja, as diferenças geradas pelo seu comportamento.
Pais que mentem, mas têm plena consciência de que estão mentindo para justificar o que quer que seja, geralmente com uma mentirinha social, e ainda mais se fazem os filhos aceitarem isso como normal, acabam gerando menos problemas, por incrível que possa parecer para os desavisados. Ou os filhos vão seguir com essas mentirinhas, sem se importarem nem pensarem nelas, como provavelmente seus pais já faziam, ou vão ter uma chance mais acessível de questionar a mentira, conscientizar-se dela num nível mais amplo e discernir quanto ao seu uso — a melhor das hipóteses. Tudo porque a energia de importância, valorização, da mentira não é muito grande.
Já os pais que mentem para si mesmos geralmente criam filhos mais confusos, que percebem que eles estão mentindo e achando que aquilo é verdade. Esses pais normalmente reforçam para os filhos que eles não devem mentir, pois acreditam que eles próprios, como acham que não estão mentindo, são um exemplo de pessoa que não mente. Pior ainda se houver um julgamento religioso por trás dessa postura. A energia nestes casos é de valorização da mentira, de um jeito ou de outro. Tudo isso pode fazer com que os filhos adotem a mesma atitude, podendo esta vir a ser reforçada de tal modo que os torne grandes críticos daqueles que mentem para si mesmos, sem perceberem, devido à grande maestria da mente, que eles assumem essa mesma atitude. Mas, é claro, há sempre uma chance, por mais improvável e difícil que seja, de que todo esse mecanismo também se torne realmente consciente e esses filhos tomem outro rumo com relação à mentira.
Conclusão: Conhecer as dinâmicas da mentira, sem julgá-la positiva ou negativa, é um ótimo facilitador em nossos caminhos na evolução.
Da próxima vez que você mentir, se possível, minta de maneira consciente. Isso fará uma enorme diferença.